Paris: do Procope ao bulevar, e o vocabulário do garçom

Antes do Procope, há casas de café à turca, de baixa categoria, onde as pessoas de condição não querem ser vistas. A virada se produz quando comerciantes franceses instalam, na feira de Saint-Germain, amplas salas ornadas de tapeçarias, grandes espelhos, mesas de mármore e lustres: beber café em público torna-se respeitável. O Café de Procope é datado de 1689 por Ukers, de 1686 por outros levantamentos, sendo 1689 o ano em que a Comédie-Française se instala em frente.
Um contemporâneo o chama de Antro de Procope, “porque ali era muito escuro mesmo em pleno dia, e via-se com frequência um bando de poetas magros e pálidos”.
Ukers 1922, cap. XI, p. 91-104; sobre a data de abertura, LC cap. 7O Café de la Régence, assim chamado por volta de 1718 em honra do Regente, é o outro polo. Cada grande café parisiense acaba tendo sua especialidade, e esta é o jogo de xadrez.
Diderot trabalhou ali na Enciclopédia, e conta que a esposa lhe dava todo dia nove soldos para o seu café. A quantia é diária, portanto o gasto entrava no orçamento doméstico.
Em Le Neveu de Rameau, ele vai lá por volta das cinco horas ver jogarem xadrez. Sentencia: “em nenhum lugar do mundo se joga xadrez tão habilmente quanto em Paris, e em nenhum lugar de Paris como nesse café”.
O café parisiense serve também de tribuna. Em 12 de julho de 1789, é ao sair do Café de Foy que Camille Desmoulins sobe numa mesa.
O número acompanha. Trezentos cafés por volta de 1710, seiscentos sob Luís XV, mais de três mil em 1843. Entre essas duas datas, o café deixa de ser uma curiosidade para se tornar um lugar comum.
Ukers 1922, cap. XI, p. 91-104, citando Diderot; documento de formação profissional, L'Histoire du café, para a série 300 em 1710, 380 em 1730, 745 em 1789A Paris de 1922 tem regras escritas em lugar nenhum. O café nunca é fervido, sempre coado ou filtrado, mas torrado “queimado quase até o estado de carvão” e misturado com chicória, tida não por falsificação mas por modificador. De manhã, café com leite para todo mundo, e o operário planta de pé em sua tigela um pedaço comprido de pão que deixa embeber antes de sorver tudo.
O café não se bebe em nenhuma outra refeição, mas se serve em meia xícara depois do almoço e do jantar, com o licor. Café gloria é café preto e conhaque em partes iguais; mazagran, o café alongado em copo grande. O garçom traz os jornais e escova a mesa duas vezes para um café crème, três vezes para um café complet.
Ukers 1922, cap. XXXV, citando Emmet G. Beeson, The Tea and Coffee Trade JournalA torra doméstica ainda ocupa a calçada: os pequenos cilindros de folha que se giram sobre uma caixa de brasas são vendidos até nas grandes lojas. O objeto não é, portanto, uma curiosidade do campo, é um artigo de prateleira.
Beeson descreve no Sul um velho que percorria o povoado para torrar o café das casas, por uns poucos soldos o quilo. O modelo é o do amolador: o artesão passa de porta em porta em vez de ter loja.
A moagem também continua doméstica, quase em toda parte. É o que torna o merceeiro tão pouco cooperativo: moer não faz parte do seu ofício. Daí a fórmula: “para fazer um merceeiro francês resmungar, compre-lhe um quilo de café e peça que o moa.”
Ukers 1922, cap. XXXV, citando BeesonNesta pranchaAs 21 seções
- 01A cerimônia árabe: o cômodo do café e seus gestos
- 02O círculo beduíno, os quatro goles, a regra da água
- 03O café turco: a sala, o preço, a etiqueta
- 04Ramadã, Karagöz e o calendário do café
- 05Damasco, Cairo, Argel: a água, a fumaça e o contador de histórias
- 06Veneza: o primeiro caffè da Europa e a praça como salão
- 07Viena: a mistura, o jornal e a palavra para pedir
- 08Paris: do Procope ao bulevar, e o vocabulário do garçom
- 09Londres: a universidade de um penny, e o que a substituiu
- 10Berlim, a Saxônia e o Kaffeeklatsch
- 11Amsterdã e Atenas: o copo d'água e o kaimaki
- 12O Norte e o Leste: chaleiras de cobre, limão e conhaque flambado
- 13Itália, Espanha, Portugal, Bélgica
- 14Os Estados Unidos: a proibição, o coffee room e a xícara grátis
- 15Nova Orleans, o Brasil, Cuba, o México, a Austrália
- 16O café na pintura, na gravura e na caricatura
- 17O café na música e na literatura
- 18A ourivesaria, a porcelana e o mobiliário do serviço
- 19Como se fabrica um costume: o gosto é um hábito
- 20O que mudou desde 1922
- 21Pranchas de arquivo