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  • História
  • Relato I

    Proibir o café

    Durante três séculos, governadores, sultões, muftis, um rei da Prússia e um bispo de Münster tentaram proibir o café. Todos fracassaram. E todos fracassaram do mesmo modo, por uma razão que nenhum deles quis encarar.

    Capítulo I

    01A palavra que permitiu tudo

    Em árabe, qahwah não designava o café. A palavra queria dizer vinho.

    Tudo parte daí, e é preciso parar um minuto, porque sem essa esquisitice de vocabulário nada do que se segue teria sido possível. As confrarias sufis do Iêmen, no século XV, adotam a decocção de grãos para velar durante as noites de devoção. Procuravam algo para se manter acordadas e, acessoriamente, algo para substituir o que lhes era proibido. Dão à sua descoberta o nome da coisa proibida.

    O nome confessa. Os censores o usarão.

    Porque há, nessa história, um problema de direito antes de haver um problema de moral. O vinho é proibido, está escrito. O café não está escrito em lugar nenhum, já que a planta não existia quando os textos foram fixados. Para alcançá-lo, é preciso portanto fazê-lo entrar neles, e o caminho mais curto passa por seu nome. Durante três séculos, todos os que quiserem proibir o café começarão tentando demonstrar que ele é outra coisa que não café: vinho, embriaguez ou, chegaremos lá, carvão.

    Em 1510, no Cairo, os dervixes iemenitas, isto é, os membros das confrarias sufis, bebem o café nas noites de devoção num grande vaso de barro vermelho; o superior serve a cada um enquanto salmodia, depois a tigela passa aos leigos. Eis o gesto. É religioso, é coletivo e se dá numa mesquita. No mesmo ano, em Meca, a bebida sai da mesquita e entra nos kaveh kanes, onde se joga xadrez e se canta. São as primeiras casas de café do mundo.

    Entre essas duas frases cabe todo o caso. O café não causou problema algum enquanto era bebido na mesquita. Passou a causá-lo no mesmo ano em que se instala numa sala aonde se vai por outra coisa que não rezar.

    Ukers 1922, p. 18-20 (a palavra qahwah, os dervixes do Cairo, os primeiros kaveh kanes); La Roque 1715, citado por Ukers; La Roque 1716, tradução de 1732; ver os marcos “por volta de 1500” e “1510” da cronologia

    Capítulo II

    Um café de Damasco ao cair da noite, legendado em neerlandês Een Koffijhuis in Damascus: sob um vasto toldo de esteiras, uma grande lanterna suspensa ilumina uns trinta homens sentados ou de cócoras à beira da água, com cachimbos de longa haste pousados no chão; na outra margem, um segundo café aberto espalha suas luzes entre as árvores. A litografia é tratada em cinzas prateados, sem nenhuma cor quente.
    Um café de Damasco à noiteCarel Christiaan Antony Last, litografia do natural, prancha 4 de uma série oriental · CC0

    02O que lhes metia medo

    Antes de olhar como procedem, é preciso perguntar o que os inquieta. Porque nenhum desses homens acorda numa manhã decidindo que uma bebida quente é o inimigo. Eles têm razões, raramente as dizem, e elas não são as mesmas em Meca em 1511 e em Berlim em 1781.

    Primeiro, uma sala que ninguém vigia. Pense no lugar onde as pessoas se reuniam antes. A mesquita, o mercado, a corte do príncipe, a casa. Cada um desses lugares tem um dono: um imã, uma corporação, um senhor, um pai. A casa de café não tem nenhum. Você paga, senta, fica o tempo que quiser, e ninguém na sala deve nada a ninguém. Para um governador de 1511, isso não é um comércio, é um buraco no mapa de sua cidade.

    Em seguida, ela toma as horas da oração. Lembre-se do detalhe do capítulo anterior: em 1510, a bebida sai da mesquita para entrar nos kaveh kanes. Os mesmos homens, as mesmas horas da noite, mas já não o mesmo lugar. Os sufis bebiam café para se manter acordados durante o ofício. Os leigos acabam por bebê-lo no lugar dele. Uma bebida inventada para servir à devoção passa a concorrer com ela, e no seu próprio horário.

    Depois, ali se fala. As fontes descrevem o que se faz ali: joga-se xadrez, canta-se, recita-se, conversa-se. Dito assim, é inofensivo. Só que, numa época em que as notícias circulam de boca em boca, uma sala por onde passam cinquenta homens por dia é simplesmente o meio de comunicação mais rápido da cidade. Carlos II dirá isso sem rodeios em sua proclamação de 1675: são “focos de sedição”, isto é, lugares onde se conspira contra o rei.

    E o grão-vizir Köprülü fecha as casas de café em 1656, justamente durante uma guerra que está perdendo. Um poder frágil não teme que se beba. Teme a sala onde se comenta.

    E depois há o dinheiro, que ninguém confessa antes de Frederico II. O café se compra no estrangeiro, a cerveja se fabrica em casa, e cada xícara é uma moeda que sai do reino. Em Meca, é menor e mais humano: um dos dois médicos que testemunharão contra o café já tinha escrito contra ele e temia por sua clientela. Raramente se defende uma ideia sem defender ao mesmo tempo o próprio ganha-pão.

    Olhe agora essa lista. Uma sala sem dono, horas roubadas à oração, conversas que não se controlam e dinheiro que sai. Nenhuma dessas quatro razões diz respeito ao gosto, à saúde ou mesmo à bebida.

    É por isso que nenhuma dessas proibições funcionou. Atacavam o que se bebia porque não podiam atacar o que se dizia.

    Ukers 1922, p. 19-22 (os kaveh kanes, os jogos e os cantos, o processo de 1511), p. 47-48 (o manifesto de Frederico II) e cronologia p. 726 (a proclamação de 1675 e a proibição de Köprülü); La Roque 1716, tradução de 1732

    Capítulo III

    03O processo de Meca

    1511. O governador de Meca chama-se Khair Beg. Faz o que fazem os governadores: constata que há reuniões que ele não controla e decide que isso deve cessar. Precisa de um motivo. Encontra-o no nome: vê no café a sombra do vinho e convoca uma assembleia para que sábios o declarem.

    O que acontece nesse dia merece ser contado em detalhe, porque o primeiro processo do café já contém todos os outros.

    Dois médicos persas se apresentam, os irmãos Hakimani. Um deles já tinha escrito contra o café e temia por sua clientela: tem, portanto, interesse pessoal no veredito, e ninguém pensa em se importar com isso. Os dois declaram a planta fria e seca. Na medicina humoral da época, é uma condenação médica em regra.

    Depois vem uma testemunha, e a audiência descamba para algo que lembra muito uma farsa. Esse homem afirma que o café embriaga como o vinho. Sabe-o, diz, porque fez a experiência. Observam-lhe de imediato que acaba de confessar publicamente ter bebido vinho. É bastonado na hora, isto é, golpeado na planta dos pés diante da assembleia.

    Em toda a assembleia, um só homem defende o café: o mufti de Áden. Um mufti é um jurista cujo ofício é dizer o que a lei religiosa permite, e seu parecer pesa muito. Um só, portanto, mas ele vem da cidade por onde o café entrou no mundo, e sabe do que fala.

    O édito é pronunciado. Não se sustentará. O sultão do Cairo o anula, e a razão que dá merece ser retida, porque é irrefutável: até a água sagrada de Zamzam, o poço de Meca onde todos os peregrinos vão beber, pode ser objeto de abuso. Em outras palavras, o abuso de uma coisa não diz nada sobre a coisa. Numa frase, o argumento que servirá para proibir o café durante três séculos é desarmado por três séculos, o que não impedirá ninguém de retomá-lo.

    O epílogo tem uma brutalidade que lembra onde estamos. O governador Khair Beg acabará torturado por concussão, a palavra da época para dizer que um funcionário se serviu do caixa. Os dois médicos serão executados no Cairo, não por sua perícia de complacência, mas por terem amaldiçoado o sultão Selim I. Ninguém, nesse caso, morreu por causa do café.

    Ukers 1922, p. 20-21, segundo o manuscrito de Abd al-Qadir traduzido por Galland em 1699; La Roque 1716, tradução de 1732; ver os marcos “1511” e “1511 · o processo” da cronologia

    Capítulo IV

    Num café de Constantinopla, um homem de pé traz uma notícia: os bebedores sentados de pernas cruzadas no estrado de madeira se inclinam para ele, com um narguilé posto entre eles e a mangueira desenrolada até o chão, enquanto duas crianças brincam em primeiro plano perto de um braseiro de cobre. A litografia é uma grisalha a lavis, assinada a pena na base da prancha.
    Fumantes de um café turco escutam as notícias trazidas por um mensageiroJoseph Nash, litografia de 1843 segundo o desenho de David Wilkie feito em Constantinopla em 1840 · Domínio público

    04Não é o café, é a sala

    Se você queria uma prova de que essas proibições nunca visaram a bebida, aqui está, e está escrita preto no branco.

    1524, Meca. O cádi, o juiz da cidade, fecha as casas de café por causa de desordens. Mas tolera explicitamente a bebida em casa. Seu sucessor reabrirá os estabelecimentos, com licença. Beba quanto quiser, mas não juntos, e não sem autorização.

    1534, Cairo. Um pregador açula a multidão contra as casas de café, que são saqueadas. A cidade se divide. O grande juiz convoca os médicos, escuta-os, depois manda servir café a toda a assembleia e o bebe ele mesmo diante dela. A querela cessa de imediato. Não é um argumento, é uma encenação, e funciona melhor do que todos os argumentos, porque cada um entende que a autoridade acaba de decidir pela ordem pública e não pela teologia.

    1543, Constantinopla. Solimão ordena por sua vez. A mercadoria é jogada ao mar. E o comércio continua, pela própria cidade que acabava de condená-lo. Apreende-se, afoga-se, embolsa-se.

    Por volta de 1580, chega-se ao ápice do gênero. Os religiosos de Constantinopla obtêm do mufti uma decisão de elegância retorcida: o café torrado é carvão, portanto matéria queimada, portanto proibida. Murade III ordena o fechamento das casas de café. E daí? Daí bebe-se atrás de portas fechadas, e os oficiais encarregados de fazer respeitar a proibição fecham os olhos mediante pagamento.

    Veja o mecanismo, é sempre o mesmo. Não se pode proibir uma bebida que não está escrita em nenhum texto: é preciso, portanto, requalificá-la. Em vinho, em embriaguez, em carvão. E, uma vez obtida a requalificação, ela não serve para nada, porque o que se queria fechar não era a xícara, mas a sala, e a sala se desloca.

    Ukers 1922, cronologia p. 725-726 e p. 20-22; La Roque 1716, tradução de 1732; ver os marcos “1524”, “1534”, “1543” e “por volta de 1580” da cronologia

    Capítulo V

    05O saco de couro

    1656. A República de Veneza e o Império Otomano disputam Creta há anos; a guerra de Cândia se arrasta, custa caro e vai mal. O grão-vizir Köprülü suprime as casas de café.

    Sua pena é graduada. Na primeira infração, a bastonada. Na segunda, o infrator é costurado num saco de couro e jogado no Bósforo.

    É preciso medir o que isso significa. Estamos muito longe das multas e das licenças. Um homem pode ser afogado por ter bebido um segundo café no lugar errado. É, de toda essa história, a sanção mais extrema já pronunciada. E ela também fracassa.

    Por que um vizir em plena guerra se volta contra casas de café e não contra outra coisa? A resposta está na data. Um poder que perde uma guerra não teme que se beba: teme a sala onde se comenta a guerra. Köprülü não combate uma substância, combate uma opinião pública nascente, e tem toda a razão quanto ao perigo, já que cinquenta anos depois, em Londres, essa mesma sala terá fundado uma companhia de seguros, uma bolsa e uma academia de ciências.

    Mas isso é outro relato.

    Ukers 1922, cronologia p. 726; ver o marco “1656” da cronologia

    Capítulo VI

    Água-forte satírica mostrando frequentadores de uma casa de café londrina sentados em torno de gazetas abertas, discutindo com veemência, com cachimbos e xícaras diante deles.
    Os políticos de caféGravador não identificado; British Museum, Londres · Domínio público

    06Carlos II pergunta a seus juízes

    Passemos à Inglaterra, onde o caso toma um rumo que o Oriente não conhecera: o de uma questão de direito posta por um rei a seus próprios juízes.

    As casas de café de Londres tornaram-se instituições. São apelidadas de penny universities: por um penny, a xícara e a conversa de sábios, comerciantes e homens de letras. Afixam suas “Regras e ordens” em versos: cada um se senta no primeiro lugar livre, doze pence de multa por um palavrão, uma rodada por uma briga, nem cartas nem dados. Um lugar que escreve suas próprias regras é um lugar que se governa, e é exatamente isso que começa a inquietar.

    Os ataques vêm primeiro de baixo, e são sobretudo cômicos. É preciso montar o cenário, porque sem ele a piada cai no vazio.

    O primeiro dono de café de Londres chama-se Pasqua Rosée. Abriu em 1652 em St Michael's Alley, um beco da City, e mandou imprimir para a ocasião um prospecto exaltando os méritos de sua bebida, The Vertue of the Coffee Drink, que é simplesmente a primeira publicidade impressa do café. Seu sócio, por sua vez, era cocheiro de ofício.

    Guarde esse detalhe do cocheiro, tudo está nele.

    Em 1672 aparece um broad-side, isto é, uma folha impressa de um só lado e vendida na rua por algumas moedas, o equivalente do panfleto da época. Intitula-se A Broad-side Against Coffee, or the Marriage of the Turk e zomba de Rosée e de seu sócio numa frase: “um cocheiro foi aqui o primeiro a fazer café, e desde então os outros tocam o negócio”.

    Traduzamos, porque é aí que fica interessante. O que o panfletário acha escandaloso não é a bebida. É que um homem que conduzia cavalos tenha passado a manter um comércio, e que esse comércio funcione. A censura não é sanitária, é social. Reencontra-se exatamente o que incomodava em Meca: uma sala em que se senta no primeiro lugar livre é uma sala em que as hierarquias deixam de se sustentar.

    Dois anos depois, em 1674, aparece The Women's Petition Against Coffee, uma petição das mulheres de Londres acusando a bebida de tornar seus maridos estéreis e tagarelas. Os homens respondem com uma contrapetição. Tudo isso é panfleto, não lei, e é melhor rir.

    Só que, no mesmo ano de 1672, algo muito mais sério se passa nos bastidores: Carlos II faz a seus juízes uma pergunta de direito. Até onde ele pode legalmente agir contra os cafés?

    Detenhamo-nos, porque essa pergunta nunca tinha sido feita em lugar nenhum. Em Meca, em Constantinopla, no Cairo, o poder proíbe e discute depois. Aqui, um rei pergunta primeiro se tem o direito. Já é uma derrota pela metade.

    Os juízes respondem que isso “poderia ser um comércio inocente”. Em linguagem clara: não vemos em que Vossa Majestade poderia se apoiar.

    Ele não leva isso em conta. Em 29 de dezembro de 1675, uma proclamação ordena o fechamento de todas as casas de café de Londres, focos de sedição.

    É revogada em janeiro de 1676, diante da petição dos comerciantes.

    Algumas semanas. É tudo o que durou a mais célebre proibição do café na Europa. E é revogada não em nome da liberdade, nem da saúde, nem da teologia, mas porque o comércio o pediu. Já se escrevera, dez anos antes, num panfleto anônimo, que o café e a Commonwealth “começam pela mesma letra e entraram juntos para uma Reforma”. A piada era justa.

    Ukers 1922, p. 53-56 (Pasqua Rosée e seu prospecto de 1652), p. 73 (penny universities), p. 58 e 60 (as Regras e ordens), p. 65-72 (The Character of a Coffee-House), p. 75-77 (o Broad-side e a consulta aos juízes, segundo Roger North, Examen), cronologia p. 726; The Women's Petition Against Coffee, Londres, 1674

    Capítulo VII

    07“Não se sabe”

    Em 27 de fevereiro de 1679, na Prefeitura de Marselha, realiza-se um debate público sobre os perigos do café.

    O assunto mudou. Já não se discute o lícito e o ilícito, discute-se a saúde. O café adoece? Resseca os humores? Abrevia a vida? Os médicos se enfrentam diante da cidade reunida, e isso é, a seu modo, um progresso: passou-se do tribunal à controvérsia erudita.

    A resposta honesta, naquele dia, cabe numa só frase: não se sabe.

    Guarde essa data. Ela é o pivô do relato. Antes, proíbe-se o café porque ele se parece com o vinho ou porque as pessoas se reúnem nele. Depois, será proibido porque custa caro ao reino, e se irá buscar a moral e a saúde como disfarce. Marselha 1679 é o último momento em que a pergunta feita é realmente a que se faz.

    La Roque 1716; ver o marco “27 de fevereiro de 1679” da cronologia

    Capítulo VIII

    Gravura satírica do interior do Tom King's Coffee House em Covent Garden à noite: uma sala lotada onde se misturam bebedores, mulheres e brigões, perucas viradas e cadeiras tombadas.
    Noite no Tom King's Coffee House, Covent GardenGravador não identificado; British Museum, Londres · Domínio público

    08Os farejadores de Frederico

    Em 13 de setembro de 1777, Frederico II da Prússia publica um manifesto sobre o café e a cerveja. Não anda com rodeios.

    “É repugnante ver a quantidade de café que meus súditos empregam… meu povo deve beber cerveja.”Frederico II da Prússia, manifesto de 13 de setembro de 1777

    Sorri-se, e erra-se em parar por aí. Esse texto é o primeiro de toda a série a dizer a verdade sobre seu motivo: o dinheiro. O café se compra no estrangeiro, a cerveja se fabrica em casa; cada xícara é uma moeda que sai do reino. A repugnância exibida é uma questão de balança comercial.

    Em 1781, o rei passa das palavras aos atos, e o aparato que inventa é notável. A Déclaration du Roi concernant la vente du café brûlé, publicada em 21 de janeiro, reserva a torra aos estabelecimentos reais e a alguns licenciados: a nobreza, o clero, os funcionários. Em outras palavras, o café continua perfeitamente permitido a quem tem meios e títulos. A exploração do monopólio, o que então se chama de régie, é confiada ao conde de Lannay, que tira dela uma renda pessoal.

    E é preciso mesmo fazer aplicar tudo isso. O rei recruta então soldados reformados, a quem se dá a quarta parte das multas que trazem, e os solta nas ruas. Seu trabalho consiste em andar farejando o ar, em busca do cheiro de um grão que se torra às escondidas. Serão chamados de farejadores de café.

    Três anos depois, em 17 de fevereiro de 1784, o eleitor de Colônia, bispo de Münster, faz o mesmo no ducado da Vestfália: venda de café torrado ou verde proibida sob pena de cem táleres, quantia que representa vários meses de salário de um artesão, ou de dois anos de prisão, só permanecendo permitidas as compras de cinquenta libras de uma vez. Ou seja, mais uma vez, só os ricos continuam. As denúncias e as farejadas envenenam o ducado. Não têm nenhum efeito sobre o consumo.

    Resta o que essa proibição produziu, e é sua verdadeira descendência. Privados de grãos, os pobres da Prússia recorrem à cevada, ao trigo, à chicória e ao figo seco. O ersatz não nasceu de uma fraude: nasceu de uma lei. Um século depois, esses mesmos substitutos encherão os pacotes vendidos como café, e será preciso todo um outro capítulo, e todo um outro aparato de detecção, para tirá-los de lá.

    Ukers 1922, p. 47-48 (a Déclaration du Roi de 21 de janeiro de 1781, a régie de Lannay, a quarta parte das multas, os substitutos) e p. 48 (decreto do eleitor de Colônia de 17 de fevereiro de 1784, citado), capítulo sobre a Alemanha (manifesto de 1777) e cronologia p. 727; ver os marcos “13 de setembro de 1777”, “1781 · Berlim” e “17 de fevereiro de 1784” da cronologia

    Capítulo IX

    09Os gêmeos de Gustavo III

    Cabe agora contar a história sueca, e contá-la pelo que é: uma lenda. Não tem fonte primária. Mas é eloquente demais para ser passada em silêncio, e o leitor tem o direito de saber exatamente o que lê.

    Conta-se, então, que Gustavo III da Suécia, hostil ao café, teria comutado a pena de dois gêmeos condenados à morte. Um beberia três bules de café por dia, o outro três bules de chá, até o fim de seus dias, sob a vigilância de dois médicos, a fim de estabelecer qual das duas bebidas mata primeiro.

    O que vem depois é o que torna a história irresistível. Os dois médicos morreram antes dos gêmeos. O rei foi assassinado em 1792. E o bebedor de chá morreu primeiro, aos oitenta e três anos.

    Nenhum arquivo sustenta essa experiência. O que está, em compensação, perfeitamente documentado, e bem menos contado, é que a Suécia proibiu o café cinco vezes entre 1756 e 1823. Cinco proibições reais, cinco fracassos reais. E é a experiência imaginária que todo mundo retém.

    Há aí uma lição sobre a memória que vale para todo este relato. O que sobrevive não é o que aconteceu, é o que se conta bem.

    Lenda sem fonte primária, relatada notadamente por Weinberg e Bealer, The World of Caffeine (2001); as cinco proibições suecas entre 1756 e 1823 são, essas sim, documentadas; ver o marco “por volta de 1780” da cronologia, marcado como lenda

    Capítulo X

    Litografia de uma sala de café turca onde homens e duas crianças estão sentados diretamente em estrados baixos, com longos cachimbos na mão, em torno de um fogareiro onde esquentam as cafeteiras.
    Homens e crianças fumando num café turcoJoseph Nash segundo David Wilkie; Wellcome Collection, Londres · CC BY 4.0

    10A última proibição já não se parece com as outras

    Saltemos dois séculos. A série não está encerrada, mas mudou de natureza, e é essa mudança que interessa.

    Em 1988, a Costa Rica proíbe por lei o cultivo de canephora em seu território. Não a bebida: a espécie. É o único país produtor do mundo a ter feito isso. O motivo já não tem nada de teológico nem de moral, e nada a ver com uma sala onde as pessoas se reúnem: trata-se de empurrar os plantadores para o arábica, portanto para a qualidade, portanto para um preço. Uma proibição de política industrial.

    E eis a honestidade devida ao leitor: o que aconteceu com essa lei em 2018 não está claro. Uma tentativa de revogação fracassou por falta dos dois terços do Congresso, e várias fontes afirmam, no entanto, que foi concedida uma abertura às zonas quentes, a título de adaptação ao clima. O cafezal costarriquenho, por sua vez, continua quase inteiramente em arábica. Não pusemos a mão no texto da lei; enquanto for esse o caso, esta frase ficará no condicional.

    Daily Coffee News, fevereiro de 2018, sobre a tentativa de revogação; BeanScene; o próprio texto legislativo costarriquenho ainda está por ser encontrado; ver o marco “1988 · Costa Rica” da cronologia
    • Retomemos a série. Meca 1511, Meca 1524, Cairo 1534, Constantinopla 1543, Constantinopla por volta de 1580
    • 1656Constantinopla
    • 1675Londres
    • 1777 e 1781a Prússia
    • 1784a Vestfália
    • a Suécia cinco vezes entre 1756 e 1823. Dois continentes, três séculos, regimes que não têm nada em comum e nenhum sucesso.

    Nenhum, e sempre pela mesma razão. Julgava-se proibir uma bebida; proibia-se uma sala. E uma sala se desloca: atrás de uma porta fechada em Constantinopla, em casa em Meca, na casa do licenciado em Berlim. O único poder que obteve alguma coisa é aquele que não proibiu nada: o grande juiz do Cairo, em 1534, que mandou servir uma xícara diante da cidade e a bebeu.

    Resta o que essas proibições deixaram atrás de si, e é talvez o mais irônico. Não fizeram desaparecer uma única xícara. Inventaram a chicória.

    Para ir verOs substitutos nascidos das proibições prussianas tornam-se, um século depois, a matéria-prima da fraude: A falsificação. As casas de café que Köprülü e Carlos II queriam fechar fundam a Royal Society, a Lloyd's e duas Bolsas: Os costumes. E todos os marcos deste relato se encontram na cronologia, onde o filtro “Proibições” os reúne em ordem.
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