O círculo beduíno, os quatro goles, a regra da água

Entre os nômades de Doughty, o café orienta a própria tenda. O xeque Zeyd vira a fachada dela para o sul, portanto em pleno sol, para desencorajar os bebedores parasitas.
O procedimento tem um limite, e esse limite é uma regra: um homem de posição que entra numa tenda de xeque deve ser servido, mesmo na ausência do dono. Não se recusa, portanto, dissuade-se.
O material viaja com o acampamento. As cafeteiras cabem na fatya, o cesto do café. O almofariz é de latão, comprado na cidade, ou de madeira cravejada.
O grão é pilado ali “com um tilintar magnânimo”, ritmado como todo trabalho nômade.
Ukers 1922, cap. XXXV, citando Doughty, Travels in Arabia Deserta (1888)A dose é fixa: o fenjeyn kahwah, a xícara de café, “não passa de quatro goles”. Ninguém serve mais, ninguém pede mais.
Encher até a borda, como se faz nas cidades do norte, seria uma injúria de sentido perfeitamente claro: “beba isso e vá embora”. A xícara cheia despede, a xícara pela metade retém.
O lugar também vale posição. Quanto mais ao fundo da tenda, mais alto é o lugar. Um pobre que chega por trás fica de pé, e espera que o círculo se alargue para ele.
Ukers 1922, cap. XXXV, citando Doughty (1888)Uma regra atravessa todo o Levante: a água se bebe antes do café, nunca depois. Ukers cita a receita do cádi Hodhat, que a justifica pelo fato de a água fria diminuir o ressecamento do café e torná-lo menos causador de insônia, e um viajante dá a prova: “Uma vez, na Síria, me reconheceram como estrangeiro porque eu tinha pedido água logo depois do café.” O kisher, decocção das cascas torradas da cereja, ainda se bebia, e os Galla misturavam o grão pulverizado a gorduras para fazer uma ração de marcha.
Ukers 1922, cap. XXXV, receita atribuída ao cádi HodhatNesta pranchaAs 21 seções
- 01A cerimônia árabe: o cômodo do café e seus gestos
- 02O círculo beduíno, os quatro goles, a regra da água
- 03O café turco: a sala, o preço, a etiqueta
- 04Ramadã, Karagöz e o calendário do café
- 05Damasco, Cairo, Argel: a água, a fumaça e o contador de histórias
- 06Veneza: o primeiro caffè da Europa e a praça como salão
- 07Viena: a mistura, o jornal e a palavra para pedir
- 08Paris: do Procope ao bulevar, e o vocabulário do garçom
- 09Londres: a universidade de um penny, e o que a substituiu
- 10Berlim, a Saxônia e o Kaffeeklatsch
- 11Amsterdã e Atenas: o copo d'água e o kaimaki
- 12O Norte e o Leste: chaleiras de cobre, limão e conhaque flambado
- 13Itália, Espanha, Portugal, Bélgica
- 14Os Estados Unidos: a proibição, o coffee room e a xícara grátis
- 15Nova Orleans, o Brasil, Cuba, o México, a Austrália
- 16O café na pintura, na gravura e na caricatura
- 17O café na música e na literatura
- 18A ourivesaria, a porcelana e o mobiliário do serviço
- 19Como se fabrica um costume: o gosto é um hábito
- 20O que mudou desde 1922
- 21Pranchas de arquivo