Quando a química discrimina, e o que ela discrimina de verdade
Gostaríamos que uma análise química pudesse dizer, no lugar do provador, se um café é bom. Uma tese brasileira de 2013 colocou a questão de forma correta, e sua resposta é mais interessante do que um sim ou um não.
Luisa Pereira Figueiredo, na Universidade Federal de Lavras, sob a orientação de Flávio Meira Borém, comparou quatro genótipos de arábica: o Mundo Novo, muito cultivado no Brasil, e três pertencentes ao grupo Bourbon. Não em laboratório, mas no campo, e em três lugares diferentes: Lavras e Santo Antônio do Amparo, em Minas Gerais, e São Sebastião da Grama, na Mogiana paulista.
Primeiro resultado, e diz respeito ao lugar: São Sebastião da Grama revelou-se o mais promissor dos três para produzir cafés especiais.
Segundo resultado, e é o que deveria fazer refletir quem compra um café pelo nome da variedade. Os três Bourbon não se equivalem. O Bourbon Amarelo IAC J9 e o Bourbon Amarelo de origem SSP são indicados para o café especial. O Bourbon Amarelo de origem CM não é, e não é em nenhum dos três ambientes. Mesmo nome, mesmo grupo, e um veredicto oposto qualquer que seja o terroir.
Terceiro resultado, contraintuitivo: o teor de cafeína permitiu discriminar a qualidade da bebida, e os cafés superiores continham menos. A sacarose e o ácido oxálico também se revelaram bons marcadores da qualidade dos cafés especiais.
Quarto resultado, e ele divide direitinho o trabalho entre a planta e o lugar: o teor de 5-ACQ, um ácido clorogênico, permitiu discriminar os ambientes. Em outras palavras, nesse conjunto de dados, a química sabe dizer melhor de onde vem um café do que o que ele é.
Duas precauções, porque esse tipo de resultado viaja rápido e mal. Esta é uma tese de 2013, sobre quatro genótipos e três locais. “Os bons cafés têm menos cafeína” não é uma lei da natureza: é um poder discriminante observado em uma amostra precisa. E nada ali dentro substitui uma degustação; no máximo, indica onde a química poderia um dia auxiliá-la.
Figueiredo, Abordagem sensorial e química da expressão de genótipos de Bourbon em diferentes ambientes, tese de doutorado em ciência dos alimentos, Universidade Federal de Lavras, 2013 (orient. Flávio Meira Borém), 127 p.Nesta pranchaAs 18 seções
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