28Brasil
39.470.000 sacas (OIC 2009/10)Ficha de país aprofundada: produção, variedades, classificação, história, situação atual e pontos ainda incertos. Região: América do Sul.
O Brasil é o país dos grandes espaços. Primeiro produtor e primeiro exportador mundial, produz sozinho cerca de um quarto da oferta mundial de café. Suas “fazendas” estão entre as mais avançadas tecnologicamente do mundo, capazes de processar enormes volumes muito rápido.
Mas reduzir o Brasil ao volume seria perder de vista uma evolução: o país apresenta cada vez mais cafés especiais, com a qualidade se tornando um verdadeiro argumento comercial, apoiado pelo poder público. É também, fato menos conhecido, o primeiro país consumidor de café do mundo, à frente dos Estados Unidos.
- Espécies botânicas
- Arábica (85 %), canephora (15 %)
- Altitude
- 200 a 1.300 m
- Colheita
- Mecânica
- Processamento
- Via úmida e via seca
- Triagem
- Mecânica ou eletrônica
- Período de colheita
- Março a novembro
- Acondicionamento
- Saca de 60 kg
Volume recente 65 milhões de sacas em 2025-2026, 71,9 previstos em 2026-2027, recordeUSDA FAS, Coffee: World Markets and Trade, junho de 2025 e junho de 2026
A origem geográfica
À escolha: o porto de embarque (ex.: Santos), o estado (ex.: Minas Gerais) ou a região (ex.: Sul de Minas).
O número de defeitos (“tipo”, amostra de 300 g)
| Tipo | Defeitos máx. |
| Tipo 2 | 8 |
| Tipo 2/3 | 12,5 |
| Tipo 3 | 17 |
| Tipo 3/4 | 23,5 |
| Tipo 4 | 30 |
| Tipo 4/5 | 58,5 |
| Tipo 5 | 87 |
Granulometria: a peneira (0,4 mm) vai de 13 a 20 para os grãos chatos, de 9 a 12 para os grãos redondos (moca / Peaberry).
O sabor: maciez e finura
| Maciez (do + ao − macio) | Finura (do + ao − fino) |
| Strictly Soft | Fine Cup |
| Soft | Good Cup |
| Softish | Fair Cup |
| Hard | Poor Cup |
| Hardish | Bad Cup |
| Rio | - |
Exemplo de descrição típica: “Brasil, Cerrado Tipo 2 peneira 18 Strictly Soft Fine Cup”.



A história
A primeira plantação brasileira é estabelecida no Pará em 1723, com mudas vindas da Guiana Francesa. Fracassa, sem que se saiba por quê.
Lenda · A versão famosa diz que o português Francisco de Melo Palheta teria trazido as sementes de Caiena. Fora enviado para lá em 1727 para arbitrar uma disputa de fronteira, e a Guiana se recusava a exportar suas sementes. A esposa do governador as teria passado a ele, escondidas num buquê de despedida.
O que está estabelecido cabe em duas proposições: Portugal procurava sementes, e o Brasil as obteve. O trajeto exato, esse, pertence ao relato.
O cultivo intensivo parte em seguida das colônias portuguesas do Pará e do Amazonas, em 1752. Dois aportes datados o seguem.
- 1760João Alberto Castello Branco traz ao Rio um cafeeiro vindo de Goa.
- 1774O monge Molke oferece sementes ao mosteiro dos Capuchinhos do Rio.
- O século XX brasileiro é o da superprodução administrada politicamente. A safra de 1906-1907 atinge 20.190.000 sacas quando o mundo consome menos: São Paulo lança a “valorização”, compra e estoca para sustentar as cotações
- e coloca em 1908 um empréstimo de 75 milhões de dólares. A quebra de 1929 deixa o país com estoques invendáveis
- a partir de 1931, o Estado destrói café. Depois
- na noite de 17 para 18 de julho de 1975, uma geada chamada negra se abate sobre o Paraná e o sul de São Paulo: cerca de um bilhão e meio de árvores mortas, e um preço mundial que mais que triplica.
O Brasil é também o principal selecionador de variedades do mundo. O Instituto Agronômico de Campinas produziu o Caturra (mutação anã do Bourbon identificada por volta de 1915-1918, registrada em 1951), o Mundo Novo (cruzamento natural de Sumatra Typica com Bourbon Vermelho, 1943, registrado em 1977), o Catuai (Caturra Amarelo com Mundo Novo, 1949, registrado em 1972) e o Icatu, canephora tetraploidizado cruzado com Bourbon. O Maragogipe foi identificado em Maragogipe, no estado da Bahia, por volta de 1870, e o Conilon, canephora de tipo guineano, introduzido em 1912 no Espírito Santo.
World Coffee Research, Coffee Varieties Catalog 2025, fichas Caturra, Mundo Novo, Catuai, Icatu, Maragogipe, Conilon; Setotaw et al., Crop Science 53 (2013)Hoje
O volume do alto da ficha, 39.470.000 sacas, é o da ficha (OIC 2009-2010). Envelheceu, e a referência de volume recente colocada mais acima nesta ficha o corrige.
A posição, essa, não mudou: primeiro produtor e primeiro exportador mundial, com cerca de um quarto da oferta mundial. A colheita é mecânica, entre 200 e 1.300 metros, tanto pela via úmida quanto pela via seca.
O Espírito Santo difundiu, além disso, variedades clonais de Conilon. Uma variedade clonal não é uma linhagem semeada, mas um conjunto de estacas, cada uma idêntica ao pé de que vem.
A Vitória Incaper 8142 reúne treze, compatíveis entre si. O Robustão Capixaba, por sua vez, foi escolhido por sua tolerância à seca.
Fichas de países, Marco De Sousa Rosa, 2026; World Coffee Research, Coffee Varieties Catalog 2025, fichas Vitória Incaper 8142 e Emcapa 8141; Ferrão et al. 2020O país do volume tornou-se também um país de especialidade: o pulped natural (cereja descascado, em português) surge depois da dissolução do Instituto Brasileiro do Café e se difundiu pelo mundo inteiro. O Brasil é, por fim, o primeiro país consumidor de café do mundo, à frente dos Estados Unidos.
LC cap. 17b; Fichas de países, Marco De Sousa Rosa, 2026Zonas de sombra
- A história de Palheta e do buquê é uma lenda: nenhuma fonte primária a atesta.
- O número de árvores mortas pela geada de 1975, “cerca de um bilhão e meio”, é uma estimativa retomada de Pendergrast, não uma contagem.
- O quarto da oferta mundial atribuído ao Brasil varia muito conforme os anos e o ciclo bienal de produção.
- O ano exato da dissolução do Instituto Brasileiro do Café não é dado pelas fontes consultadas.